A Associação Nacional dos Auditores do Banco Central do Brasil (ANBCB) vem a público reafirmar que o Banco Central e o Pix merecem respeito, assim como os servidores, muitos deles Auditores do Banco Central, que conceberam, construíram e mantêm o Pix em funcionamento ininterrupto. Segundo a pesquisa Genial/Quaest divulgada em 9 de agosto de 2026 mostrou que o Pix é hoje a “instituição” em que mais confiam os brasileiros, à frente da Igreja Católica, da Polícia Militar e das Forças Armadas (ver InfoMoney).
Essa confiança não caiu do céu: é fruto direto do trabalho, muitas vezes invisível, dos Auditores do BC que garantem a segurança e a disponibilidade do sistema todos os dias, a qualquer hora. Respeito, porém, não se resume a discursos de ocasião: exige reconhecimento efetivo das condições de trabalho, da estrutura orçamentária e da autonomia institucional necessárias para que o Banco Central (BC) continue entregando ao país um sistema de pagamentos seguro, disponível e reconhecido internacionalmente como referência. É esse compromisso concreto, e não apenas retórico, que a ANBCB cobra de todos os Poderes e de todos os candidatos neste período eleitoral.
No dia 16 de agosto de 2026, no ato de lançamento da campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em São Bernardo do Campo, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, discursou “em defesa do nosso Pix, em defesa do nosso Brasil”, associando explicitamente o sistema de pagamentos instantâneos à soberania nacional (íntegra em Revista Fórum). A fala, correta em seu conteúdo e bem-vinda em seu simbolismo, reconhece o que a ANBCB defende há anos: o Pix é infraestrutura pública estratégica e instrumento de soberania econômica. Mas a soberania de um sistema que opera 24 horas por dia, 7 dias por semana, 365 dias por ano não se sustenta apenas em palanque. Sustenta-se com estrutura, remuneração adequada e valorização de quem o opera todos os dias, inclusive de madrugada e nos finais de semana.
É exatamente aí que a contradição se instala. Sob os olhos do próprio vice-presidente Alckmin, o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) negou, neste mesmo governo, alterações no regime de trabalho dos Auditores do BC que previssem regimes de sobreaviso e de plantão dignamente reconhecidos e recompensados.
Hoje, os Auditores que cuidam do Pix em escala 24x7x365 não recebem nenhuma contrapartida por isso, fato já reconhecido publicamente pelo próprio presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, em audiência na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal, em 19 de maio de 2026: “Hoje eu tenho pessoas que trabalham no Pix 24 por 7, de madrugada, de manhã e de final de semana, trabalhando por devoção ao sistema financeiro” (íntegra em Finsiders Brasil). Depender da “devoção” de servidores para manter em pé um sistema crítico para a economia nacional é o retrato exato do problema que a ANBCB denuncia. A recusa do MGI vai, aliás, na contramão de compromisso internacional assumido pelo próprio Brasil: a Convenção nº 171 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), princípio que se aplica com ainda mais razão a quem cuida, em regime de sobreaviso e plantão, de uma infraestrutura crítica como o Pix.
Essa negativa contraria, também, a própria natureza do Banco Central, instituição que possui setores tanto operacionais quanto estratégicos que atuam em horários atípicos, não apenas em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC), mas também em operações de segurança, em logística de numerário e na operação de mesas de câmbio e de investimentos internacionais, para citar apenas alguns exemplos. A visão que hoje prevalece no governo trata o BC como órgão eminentemente burocrático, de expediente administrativo, esquecendo-se das suas operações críticas realizadas para o país.
Por isso, a ANBCB conclama todos os atores públicos e todos os candidatos, em ano eleitoral, a tratarem o Banco Central e seus servidores com o respeito que a instituição merece: sem demagogia de palanque, bradando que “o Pix é soberano”, enquanto se descuidam as condições estruturais orçamentárias, de pessoal e de regime de trabalho que sustentam essa soberania no dia a dia.
